quarta-feira, 31 de maio de 2017

NO UNIVERSO DOS SENTIDOS


Não sei dizer-te muita coisa…
sinto que há palavras que me tombam quando chegam à boca
como se a morte me espreitasse, como um destino inexorável
do qual não pudesse regressar
por isso as engulo sem saliva
ficando no silêncio mudo do meu corpo
esperando-te.
Outras fogem-me aos soluços como um lamento ou uma alegria breve
tão breve como a palavra
tão sentida como um beijo, uma caricia
aí desfaz-se a mudez e, por instantes, abre-se o sorriso
ao mundo.
Depois ainda as outras que me mantêm cativa…
essas escorregam-me pelo corpo como uma flor que se desfolha
quantas vezes consentida corola desnuda
perpetuando a nudez pelo universo do quarto
em crescente…
Não sei dizer-te muita coisa
Na verdade, não sei se alguma vez te soube dizer alguma coisa em palavras
Ou se apenas as sentiste.

(Teresa Brinco de Oliveira)

PENSAMENTO


ontem à noite
sonhei de corpo inteiro
-acordei com teu cheiro

(Alonso Alvarez)

FÁCIL ENTENDER


Talvez por não saber falar de cor, imaginei.
Talvez por não saber o que será melhor, aproximei.
“O meu corpo é o teu corpo, o desejo entregue a nós.”
Sei lá eu o que queres dizer…
Despedir-me de ti, adeus um dia voltarei a ser feliz…


Letra da música: Fácil Entender
Grupo- Gift,

quarta-feira, 19 de abril de 2017

DESPEDIDA


Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta música é quase o vento.

(José Agostinho Baptista) - in “Paixão e Cinzas” 

O VERÃO


Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.

(José Agostinho Baptista) -in “Paixão e Cinzas"