segunda-feira, 19 de outubro de 2015


Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,...
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.


(Miguel Torga) 

Photography: Anna O.

COSTUMO CAIR NOS TEUS DEDOS



Costumo cair nos teus dedos
duas mãos de amparo
a evitar queda maior...

e tu riste-te sempre
a contar o número de vezes
em que caí nos teus dez dedos

por isso nunca 
me esqueço de ti

além de outras coisas mais
como os enormes silêncios
de noites tão repetidas

costumo cair nas tuas mãos



(Joaquim Alves)

afinal a solidão é muito mais densa que qualquer nevoeiro - afinal a solidão pode vir mascarada de sorrisos e "boas vontades" - afinal ---- a solidão é sempre mais forte - afinal a solidão renasce apenas num olhar de - eu - afinal a solidão só quer que assim seja - que estejamos sozinhos - em momentos de abraços - a solidão abraça com braços mornos - que arrefecem --- com o tempo - afinal - e´assi...m - afinal a solidão não nos quer acompanhados- suga-nos com beijos molhados - cega-nos com esperança - afinal - a solidão é tudo isto - e descobrimos num esgar de olhos - num sorriso egoísta - num cobrar de fazer - assim que se sente confortável - senta-se no nosso ombro e sorri s- a solidão - com sorriso diabólico - sem palavras sussurra - e já sabia! a solidão tem uma cauda que nos escorrega pelas costas - nos aconchega no meio do nada que sentimos - a solidão tem pernas e antenas---- afinal - sempre aqui estiveste - disfarçada de sorrisos e boas vontades - vem... senta-te aí - aconchega-te no meu ombro --- já te conheço tão bem --- queres um café? fazes-me companhia? - hoje--- podes dormir comigo - sem te esconderes nas dobras do lençol- vem - bebe o café - fuma um cigarro - diz-me porque voltaste --- 



(TMQ)

terça-feira, 8 de setembro de 2015


Desenha com a ponta dos teus dedos 
as fronteiras exactas do meu rosto 
as rugas, os sinais, a cicatriz que ficou da infância 
o lento sulco das lâminas onde no peito 
se enterra o mistério do amor ...
e diz-me o que de mim amaste 
noutros corpos, noutras camas, noutra pele 
prometo que não choro 
mas repete as palavras um dia minhas 
que sem querer misturaste nas tuas 
e levaste com as chaves de casa e os documentos do carro- 
e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio 
na primeira madrugada em que me esqueceste.


(Alice Vieira)
Foto de: Monia Merlo

VIDA TÃO ESTRANHA


São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida...
A sorte a mim já não me chama.


Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado.


A gente vive na mentira
Já não dá conta do que sente
Antes sozinha toda a vida
Que ter um coração que mente.


(Rodrigo Leão)
Arte de: Valery Vetshteyn

Sempre que eu puder, serás uma lua na parede, acima de um qualquer nosso, banco de jardim. E para que não sejam apenas as folhas a nossa companhia, tratarei de rodear.te de estrelas.
Ao lado, bem junto, estarei eu.
Sempre que eu puder… Serás um nascer de um sorriso, e eu o desenho de um abraço.


(Luís Santos)

CORREMOS DENTRO DOS CORPOS


Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. 
Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas ...daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.


(José Luís Peixoto)- in 'Antídoto'