terça-feira, 18 de março de 2014


Ela flutua, ela hesita: em suma, ela é mulher.

(Jean Racine)
Arte de: Shaine Turner


CARINHO TRISTE


A tua boca ingênua e triste
E voluptuosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias,

A tua boca ingênua e triste
É dele quando ele bem quer.

Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência,
Teus seios, que são como os seios intactos das virgens,
São dele quando ele bem quer.

O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha de mar e céu
[ao pôr do sol,

É dele quando ele bem quer.

Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de criança que se deve afagar e acalentar.
(A minha tristeza também!...)
Só não é dele a tua tristeza, ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.
 
(Manuel Bandeira)
 
O limite da nudez
é o olhar. O corpo despe-se
sob as pálpebras de outro
corpo. Nenhuma roupagem esconde
contornos, sinais, vestígios....

Imposição, exposição, máscara
de gestos que se despem na
memória e na pele. A
nudez é o limite
do olhar.

Joaquim Pessoa- in, "Vou-me Embora de Mim
Imagem Google

DE QUE SÃO FEITOS OS DIAS?


 De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades, ...

silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles, in 'Canções'

"Eu sonho contigo
Em cores que não existem."
 
(Desconheço o autor)
 
Arte de: Alberto Pancorbo



E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e, entre suspiros, perguntava: Em que dia nasceste? E me respondias com voz tremula: Estou nascendo agora...

(Mia Couto)
 
¡Beso que ha mordido mi carne y mi boca
Con su mordedura que hasta el alma toca!
¡Beso que me sorbe lentamente vida
Como una incurable y ardorosa herida!

¡Fuego que me quema sin mostrar la llama...

Y que a todas horas por más fuego clama!
¿Fue una boca bruja o un labio hechizado
El que con su beso mi alma ha llagado?

¿Fue un sueño o vigilia que hasta mí llegó
El que entre sus labios mi alma estrujó?
Calzaré sandalias de bronce e iré

Adonde esté el mago que cura me dé.
¡Secadme esta llaga, vendadme esta herida
Que por ella en fuga se me va la vida!

 (Juana de Ibarbouro)