quinta-feira, 22 de setembro de 2016


Todas as palavras do mundo não valem a poesia de um abraço...

(Desconheço o autor)

Photography: Nikkimoore

A VOZ A TI DEVIDA


(...) Ouves como elas pedem realidades,
elas, descabeladas, feras,
elas, as sombras que nós dois forjamos
...
neste tão grande leito de distâncias?
Cansados já de infinitude e tempo
sem medida, do anônimo, feridas
por imensa saudade de matéria,
pedem limites, dias, nomes.
Não podem
viver assim, não mais; estão à beira
do desmaiar das sombras, que é o nada.
Acode, vem comigo.
Estende as mãos, estende-lhes teu corpo.
Os dois lhe buscaremos
uma, uma data, um peito, um sol.
Que descansem em ti, sê tu sua carne.
Calmar-se-á seu grande ansiar errante,
Enquanto avidamente
as estreitamos entre os corpos nossos
onde encontrem seu pasto e seu repouso.
E dormirão enfim em nosso sono
abraçado, abraçadas. E assim logo,
ao separar-nos, ao nutrir-nos só
de sombras, em distâncias,
elas
terão lembranças já, terão passado
de carne e osso,
o tempo que viveram dentro em nós.
E seu sono afanoso
de sombras, outra vez, será o retorno
a esta rósea e mortal corporeidade
onde inventa o amor seu infinito.

[Pedro Salinas]- Tradução de: José Jeronymo Rivera

ALMA DOCE DE OLHOS MAREJADOS

"....
deixa os cabelos voarem com o vento
tira dos lábios, um murmúrio, um lamento..."

(Fátima Abreu) - Pequeno excerto do poema: "Alma doce de Olhos Marejados"

Abre o teu coração com quem conhece a tua alma. Ser sincero, ainda que nesses momentos de intensa dor o falar te custe sangue.

(Jesus Urteaga)

Fotography: Ezgi Polat

COMO É QUE...


Como é que eu,
ouvindo tão mal, distingo
o teu andar desde o princípio do corredor?
...

Como é que eu,
vendo tão pouco, sei
que és tu chegas, conforme a luz?

Como é que eu,
de mãos tão ásperas, desenho
a tua cara mesmo tão longe dela?

Onde está
tudo o que sei de ti
sem nunca ter aprendido nada?

Serei ainda capaz
de descobrir a palavra
que larga o teu rasto na janela?

(Que seria de nós
se nos roubassem os pontos de interrogação?)

(Mário Castrim)

Arte de: Ewelina Ladzinska

QUANDO O AMOR MORRER


Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
...
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

(Ruy Cinatti) - in, Obra Poética ( Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992)

Photography: Alexander Yakuvlev

VESTE-ME A SEDA


Veste-me a seda
das tuas mãos
serenas
...
Veste-me a roupa quente da tua pele
e aperta-me com o cinto dos teus braços
no lugar onde o meio traz cansaços
Evita que na ausência de ti gele

Recorta-me
em pequenos pedaços
Ata-me em laços
e guarda-me no coração
antes de saíres para o mundo
e bater no fundo
da traição que te apetece

(Edgardo Xavier)

Arte de: Peter Mitchev