quinta-feira, 9 de junho de 2016

NÃO VÁS AINDA...

Fala-me agora da dormência do corpo envolto em silabas, da seiva que escorre por entre a casca rugosa dos pinheiros e das bocas que morrem de sede das coxas alvas. Fala-me agora… e que o verso fique invisível e a porta se mantenha aberta para lá da silhueta da lua, como se o sol teimasse em ficar na rua onde moras. Vem e demora-te nos pomares e nos ramos maduros dos meus braços, vem colmatar o atraso que medeia a cabeceira e os pés do leito desalinhado e aquece os dedos na fogueira que rouba a luz das estrelas; fala-me agora e fica, não vás ainda, prometo dar-te o lado leste da cama, o lado de onde se ouvem as nuvens e amanhece os entardeceres, não vás ainda… abraça-me mais uma vez e adormece os ais soltos nos filamentos prateados do meu cabelo.
Não vás ainda… não vás ainda.

(francisco valverde arsénio) in- IN-VERSO PRESENTE
13 de Maio de 2014
 

domingo, 5 de junho de 2016

MELANCOLIA

A melancolia pode às vezes ser isto,
um modo de sobreviver ao vazio, o comovido
jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa

e pedir outro martini fresco
se faz favor.


(Manuel de Freitas)
Imagem Google


O amor é tão curto e tão longo o esquecimento.


(Pablo Neruda)


Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.
... Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.


(Manuel Alegre)

DA NUDEZ

São muitos os dias em que os meus bolsos estão vazios.
Nestes dias, não há peça de vestuário que me abrigue da nudez.


(Nelson d'Aires)

SOMOS BEBÉS GRANDES


"Os homens não crescem. Somos bebés grandes, nunca deixamos de querer ser amamentados. As mulheres são, para nós, as mais belas e misteriosas coisas do mundo. São humanas mas são algo mais que isso. São infinitamente misteriosas. Não as merecemos."


(John Banville) - "excerto de uma entrevista"

E AGORA?

Da paixão cansei-me (pode acolher tanta morte um corpo, esse mesmo que brilha à luz do desejo, esse mesmo que guarda a promessa da alegria). A verdade gastou-se (isto é o mais fácil de compreender: a verdade gasta-se, quando chegamos ao lugar de a encontrar, sabemos por fim que não existe). Sobrou o que sou e o que não sou também, pelo meio a linha de uma estreita solidão, e é isto que te dou (isto o que te posso dar). Só aqui, só agora, este sorriso de estar vivo, e por vezes o cansaço (que embora não pareça faz parte do sorriso).
E agora já me entendes?
E agora ainda me queres?


(Jorge Roque)