domingo, 5 de junho de 2016

O SILÊNCIO E EU


(...) Hoje,
nada quero 
escrever.
Irei dedicar-me 
aos silêncios.
Meus silêncios.
Há tempos, 
não os ouço.
Preciso tocá-los
Senti-los
Afaga-los.
Ficarmos a sós,
deitados sobre 
as horas,
num lugar,
onde nem o vento
consiga nos escutar.

(Bruno de Paula)
Phtography: Noel Oszvald

POVOAMENTO

No teu amor por mim há uma rua que começa 
Nem árvores nem casas existiam 
antes que tu tivesses palavras 
e todo eu fosse um coração para elas 
Invento-te e o céu azula-se sobre esta 
triste condição de ter de receber 
dos choupos onde cantam 
os impossíveis pássaros 
a nova primavera 
Tocam sinos e levantam voo 
todos os cuidados 
Ó meu amor nem minha mãe 
tinha assim um regaço 
como este dia tem 
E eu chego e sento-me ao lado 
da primavera

(Ruy Belo)- in "Aquele Grande Rio Eufrates"
Arte de: Gustav Klimt

ELOGIO DA AMADA


Ei-la que vem ubérrima numerosa escolhida 
secreta cheia de pensamentos isenta de cuidados 
Vem sentada na nova primavera 
cercada de sorrisos no regaço lírios 
olhos feitos de sombra de vento e de momento 
alheia a estes dias que eu nunca consigo 
Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso 
começa para além dela a ser longe 
A amada é bem a infância que vem ter comigo 
Há pássaros antigos nos límpidos caminhos 
e mortes como antes nunca mais 
Ei-la já que se estende ampla como uma pátria 
no limiar da nossa indiferença 
Os nossos átrios são para os seus pés solitários 
Já todos nós esquecemos a casa dos pais 
ela enche de dias as nossas mãos vazias 
A dor é nela até que deus começa 
eu bem lhe sinto o calcanhar do amor 
Que importa sermos de uma só manhã e não haver 
em volta 
árvore mais açoitada pelos diversos ventos? 
Que importa partirmos num desmoronar de poentes? 
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão 
multiplicando-lhe a ausência que importa 
se onde pomos os pés é primavera?

(Ruy Belo)- in "Aquele Grande Rio Eufrates"
Imagem Pinterest.

POWEMA 6 *


Se eu pudesse fazia-te princesa,
rainha dos gatos, madressilva,

encontro à noite numa auto-estrada,
flor de lótus a nascer do sangue.

Ou então ravina de onde a ave presa
do canto voasse à mais alta ogiva,

tomar por sua a lua incendiada
até que o voo interrompesse exangue.

Se soubesse, ao menos se soubesse,
na tua boca um beijo ir acender,

eu fazia-me dança e fazia-me prece,
ou fazia-me chama, rosa do amanhecer,

príncipe da treva que a razão desconhece.
Se soubesse, fazia-te mulher.


(Bernardo Pinto de Almeida)

Art Deco artist






quinta-feira, 26 de maio de 2016

TOCA-ME


conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo,
soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido,
dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.


(José Rui Teixeira)
Photography: Jaroslaw Datta

BEIJA-ME


beija-me o primeiro beijo uma vez mais.
fecha os olhos em antecipação
do frémito do corpo que amaste um dia,
desenha-lhe agora hálitos confusos,
serpentinas no tempo,
espirais de vontade.
cala-me os lábios com um sorriso
e depois, calmamente, com cuidado,
descola-te de mim sem adeus.
ou façamos um beijo desesperado,
desalmado.
só corpos
suemos cascatas de prazer sentido
no limite da consciência,
ou percamo-la, até.
beija-me
como se a memória fosse a última das derrotas,
beija-me no presente,
por quem sou.
beija-me então sem sentido,
sem retidão, dá-me o beijo imoral.
beija-me ao engano,
perde-te por mim fora e oferece-me aos deuses da morte
se quiseres.
mas beija-me o primeiro beijo.
e esse, por favor,
guarda-o só para mim.


(Carlos José Teixeira)
Photography: Amber Gray

HÁ UMA MULHER DENTRO DE MIM


que não é gramática decomposta nem acento circunflexo.
Não é metáfora exagerada, nem vegetação espessa no limite da vírgula.
Não é anáfora suada, nem rigor maiúsculo no recuo do parágrafo.
Há uma mulher dentro de mim que não é periferia nem superfície transversal.
Essa mulher que não outra mulher, esmaga-me as telhas no tecto da boca.
Tenho-a calada e encavalitada debaixo das palavras mais fáceis de carcomer.
Tenho-a cansada e regrada por cima das feridas menos custosas de sarar.
Mas essa mulher que dentro de mim não me permite outra habitação que não esta,
não me serena a vontade áspera de romper a madeira dos braços,
de moer do úmero a lasca e da acha articular outro galho maior.
Há uma mulher dentro de mim que não me reconhece como sua.
Há uma mulher dentro de mim que míngua encolhida no cavo do medo.
Há uma mulher dentro de mim que ama uma mulher insuficiente de si mesma. 

Alice Turvo