segunda-feira, 19 de outubro de 2015



Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.



(Miguel Sousa Tavares)


para não morrer de espanto, para poder com isto, para não ficar só e doido, é que inventei a insignificância, as palavras 



(Raul Brandão)

As pessoas dão demasiada importância à primeira vez. 

E a última vez? 

Ninguém pergunta pela última vez....

A última. 

A última de todas.

A última das últimas. 

A última depois da qual não há mais nenhuma. 


(Pedro Mexia)

Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,...
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.


(Miguel Torga) 

Photography: Anna O.

COSTUMO CAIR NOS TEUS DEDOS



Costumo cair nos teus dedos
duas mãos de amparo
a evitar queda maior...

e tu riste-te sempre
a contar o número de vezes
em que caí nos teus dez dedos

por isso nunca 
me esqueço de ti

além de outras coisas mais
como os enormes silêncios
de noites tão repetidas

costumo cair nas tuas mãos



(Joaquim Alves)

afinal a solidão é muito mais densa que qualquer nevoeiro - afinal a solidão pode vir mascarada de sorrisos e "boas vontades" - afinal ---- a solidão é sempre mais forte - afinal a solidão renasce apenas num olhar de - eu - afinal a solidão só quer que assim seja - que estejamos sozinhos - em momentos de abraços - a solidão abraça com braços mornos - que arrefecem --- com o tempo - afinal - e´assi...m - afinal a solidão não nos quer acompanhados- suga-nos com beijos molhados - cega-nos com esperança - afinal - a solidão é tudo isto - e descobrimos num esgar de olhos - num sorriso egoísta - num cobrar de fazer - assim que se sente confortável - senta-se no nosso ombro e sorri s- a solidão - com sorriso diabólico - sem palavras sussurra - e já sabia! a solidão tem uma cauda que nos escorrega pelas costas - nos aconchega no meio do nada que sentimos - a solidão tem pernas e antenas---- afinal - sempre aqui estiveste - disfarçada de sorrisos e boas vontades - vem... senta-te aí - aconchega-te no meu ombro --- já te conheço tão bem --- queres um café? fazes-me companhia? - hoje--- podes dormir comigo - sem te esconderes nas dobras do lençol- vem - bebe o café - fuma um cigarro - diz-me porque voltaste --- 



(TMQ)

terça-feira, 8 de setembro de 2015


Desenha com a ponta dos teus dedos 
as fronteiras exactas do meu rosto 
as rugas, os sinais, a cicatriz que ficou da infância 
o lento sulco das lâminas onde no peito 
se enterra o mistério do amor ...
e diz-me o que de mim amaste 
noutros corpos, noutras camas, noutra pele 
prometo que não choro 
mas repete as palavras um dia minhas 
que sem querer misturaste nas tuas 
e levaste com as chaves de casa e os documentos do carro- 
e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio 
na primeira madrugada em que me esqueceste.


(Alice Vieira)
Foto de: Monia Merlo