sábado, 11 de abril de 2015

POR TI, VESTI-ME DE SOL


Hoje, num ritual invulgar, vou-me vestir de Sol! Vou vestir-me silenciosa e lentamente saboreando o prazer difuso de uma ambição desmedida que cresce e nasce dos confins de muitos Aléns que a memória guarda para lá dos séculos, do tempo que dominamos, e guardamos, na ânsia de o agarrar no movimento de estar e de sentir. Vou pegar na minha ambição de Amor por esta universal...idade que me compõe e vou subir aos espaços que não domino mas onde habito numa c…onvivência paralela ou dimensionada noutras nuvens que me abrilhantam e iluminam. Quero resplandecer. Há muito que guardo o Sol na palma da minha mão em sonhos que aconchegam e salvam.

Vou vestir-me de Sol pois é lá que me movo quando ultrapasso as fronteiras que desbravo numa conflitualidade assumida e não cumprida nos limites da razoabilidade humana. Sou audaz, indisciplinada. Sou mais do que deveria ser mas sou Eu na forma pura de existência que oscila entre as dúvidas e as certezas. Vou vestir-me de Sol, milímetro por milímetro. Vou ficar com asas, ficar estrela, guerreira, deusa, rainha de luz, com cintilações poderosamente ofuscantes que, poeticamente, vão polir as árvores que olhar e os rios que fixar serão veios de ouro corrente reluzindo a céu aberto. E quando começar a escutar o sopro da melodia do vento e sentir que ele me quer envolver na brisa perfumada e refrescante como murmúrio de mar ciumento aí, vestida de magia e de Sol, sorrirei, sedutoramente, e contar-lhe-ei um segredo que ele nunca saberá guardar. O segredo fala de ti. É para ti. Por ti, vesti-me de Sol…

Sorriste e nesse instante roubaste o fascínio do meu silêncio. O teu sorriso tem brilho de Alma. Tem beleza, encanta, amacia desassossegos, desencantos, arruma-nos, enquadra-nos na vida, posiciona-nos nos desafios, ilumina esperanças esbatidas quando cedemos ao desalento. Por ti sou capaz de percorrer o Universo, para encontrar o teu sorriso. Ele fala por ti. Fala de ti. Tem fascínio. Por isso quando sorriste, abri os braços deslizei rumo ao Sol e sorri-te num poema inconfessado.

(Maria Elvira Bento)

HÁ SEMPRE UMA BRISA


Quantos sóis irradiam a luz
que ilumina o meu espaço
o meu céu...

Quando a lua cresce
no horizonte
E a bruma dos tempos se levanta
E marca presença no monte
Quanta luz me invade o espírito
Em noites de pesada insónia
Como se fosse castigo
açoite ou pesadelo
Quando apenas são fragmentos
Em busca do meu segredo
Quanta bruma ensombra meu sonho
No percurso do meu caminho
Quando alegre me detenho
E me escondo na sombra
Dos contornos do teu desenho
Mas há sempre uma brisa que passa
e repassa
Me coloca no desencontro da vida
tão breve…
E me ajuda nos novelos da nuvem
tão leve…

(Zimbro)

DÁ-ME TUA MÃO


Dá-me tua mão, e dançaremos;...

dá-me tua mão e me amarás.

Como uma só flor nós seremos,

como uma flora, e nada mais.



                  
O mesmo verso cantaremos,

no mesmo passo bailarás.

Como uma espiga ondularemos,

como uma espiga, e nada mais.



Chamas-te Rosa e eu Esperança;

Porém teu nome esquecerás,

Porque seremos uma dança

sobre a colina, e nada mais.



Extraídos de GABRIELA MISTRAL & CECÍLIA MEIRELES; GABRIELA MISTRAL Y CECÍLIA MEIRELES. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; Santiago de Chile: Academia Chilena de La Lengua, 2003

É necessário conhecermo-nos a nós próprios
para sabermos a quem devemos ignorar...

( Jose Gabriel Duarte)- in As Cores do Desejo: Poemas improváveis
Editora, Veresbrava 2014

quinta-feira, 26 de março de 2015

QUEM TERÁ FICADO COM O RESTO DO MEU SONHO?


Hoje, vou dançar com o meu sonho. Saltei o muro da realidade e agarrei as imagens ainda vibrantes de um filme do qual foi a protagonista por benevolência, talvez, doutros desígnios mais poderosos que nos movimentam o coração que bate num ritmo que me faz lembrar o teu nome. Foi um sonho auspicioso, daqueles que nos recordam a falta que nos faz ser abraçadas todos os dias, numa entrega saudável sem cobranças, sem atropelos, numa transparência humana que engrandece e acalma. O sonho decorria fora do meu controlo; não o pensei, não o escrevi, não li o argumento, ninguém me pediu opinião. Limitei-me a encostar a cabeça na almofada macia, aninhar-me nos lençóis -como me preparasse para nascer- e entrar na esfera dos adormecidos como feiticeira da noite. Nada mais do que isto. Até tu apareceres!
 
 
 Sem aviso. Sem perguntas. Sem voz. Sem gestos. Sem palavras. Nem poderia afirmar que eras tu se não fosse olhar as tuas costas, sentir a força dos teus braços e o calor do teu corpo e quando, por certo era a exigência do realizador, senti que os teus lábios se aproximavam, lembro-me de tocar nos teus ombros (lindos) com os dedos como se dedilhasse as teclas de um piano e murmurar: não está certo, isto não está certo. E acordei-me! Sem culpas mas com penas, e levei o resto da noite a imaginar que, afinal, é uma forma de viver, quem me teria escolhido, na esfera do sono, para desvendar o que eu própria desconheço? Como terias tu descoberto os caminhos dos meus sonhos se eu nem sei onde moras! Já não se dorme como antigamente, as noites são povoadas de montanhas russas em apoteoses fingidas que nos tornam poderosas nas emoções desmesuradas, como tesouros guardados nas mãos que juntamos como se ensaiássemos uma saudação oriental. Gentil e harmoniosa. Mas, quem terá, afinal, ficado com o resto do meu sonho?
 
 
(Maria Elvira Bento)

Arte de: Renata Brzozwka

VOU DANÇAR COM O MEU SONHO


Hoje, vou dançar com o meu sonho. Saltei o muro da realidade fingida e agarrei as imagens ainda vibrantes de um filme do qual fui a protagonista por benevolência, talvez, doutros desígnios mais poderosos que me movimentam o coração. O sonho decorria fora do meu controlo; não o pensei, não o escrevi, não li o argumento, ninguém me pediu opinião. Limitei-me a encostar a cabeça na almofada (macia), aninhar-me nos lençóis -como me preparasse para nascer- e entrar na esfera dos adormecidos. Nada mais do que isto. Mas, já não se dorme como antigamente! As noites agora são povoadas de montanhas russas que cortam alturas, espaços, velocidades numa vertigem que nos baralha e emotiva emoções. E o que deveria ser o tempo de abandono suave e envolvente, num ápice passa (pode) a uma tal e trepidante movimentação que eu, nem nunca nos meus melhores dias, pensei imaginar.
 
(Maria Elvira Bento)


Quando nasci
todos me fizeram crer que nasci flor
mas como podia uma flor resistir a tanta tempestade?
Quando nasci
Só eu sei que nasci pedra...

só a dureza de uma pedra resiste a tanta dor
sim, ainda sou de pedra
e todos me fazem crer que sou uma flor
 
(Olivia Santos)