quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
...

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

(José Luís Peixoto) - in "A Casa, a Escuridão

OS TEUS OLHOS


trazem o mar até à minha porta
e à memória cruzada
de um tempo, outro, entre o riso e a espada.
Entre a espera e a esperada....

Nos teus olhos
flutua o instante que se ganha, que se perde
e que o tempo suspende, suporta
e atrasa,
que se espraia num mar entre o azul e o verde
e em cada manhã chega à minha porta
e entra resplandecente e manso, pela casa.

 (Miguel Afonso Andersen) - em "O início das águas"
 
Arte de: Godfred Yarek

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

AGORA É


Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente...

ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

( Manuel António Pina)

ENCONTRO


Encontrei-a no cruzamento da rua do Segredo com a rua da
Esperança, e já na travessa da Cumplicidade, de mãos dadas e
trocando piropos, entramos na avenida do Prazer, que fomos...

percorrendo até ao largo do Encanto.

Foi lá que sem dificuldade descobrimos o parque da Felicidade
no qual decidimos passar o resto do dia, recostados num
banco de jardim, desfrutando a companhia um do outro e
fortalecendo os nossos laços de cumplicidade.

Depois, resolvemos prolongar esse dia, desafiando os limites
daquele parque, ignorando a inevitabilidade da passagem do
tempo, e continuando a reencontrar-nos mesmo sem que nos
tenhamos alguma vez perdido um do outro...

 (José Gabriel Duarte) - in As Cores do Desejo: Poemas improváveis
(Versbrava, Editora 2014)

Tudo o que me falta na realidade sobra-me em sonhos...

 (José Gabriel Duarte)- in As Cores do Desejo: poemas improváveis (Versbrava, Editora 2014)

Os meus braços servem para abraçar e não para me esconder atrás deles."

 (José Luís Nunes Martins)

Os muros de solidão que crescem em torno de nós, sempre que desistimos de ter fé, são como muralhas de castelo que nos impossibilitam de ser o que realmente somos, que impedem que o nosso amor chegue aos outros ... abortando-nos."

 (José Luís Nunes Martins)