segunda-feira, 11 de agosto de 2014

 
Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
...

A tua carne calma
É fria em meu querer
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.

(Fernando Pessoa)

ONDE QUER QUE ENCONTRES O ESCRITO


Onde quer que o encontres

escrito, rasgado ou desenhado:
...

na areia, no papel, na casca de

uma árvore, na pele de um muro,

no ar que atravessar de repente

a tua voz, na terra apodrecida

sobre o meu corpo – é teu,

para sempre, o meu nome.

(Maria do Rosário Pedreira) - in Nenhum nome depois (2004),

in Poesia Reunida Quetzal, 2012)
 
Arte de: Carrie  Vielle

INCONSTÂNCIA


Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,...

E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também... nem eu sei quando...
 
(Florbela Espanca) -in "O livro de Sóror Saudade"


Preciso te encontrar, minha imaginação vem se esforçando demais para continuar as lembranças.

(Fabrício Carpinejar)
 
Arte de: Dellorco


UM BREVE SOPRO


Um breve sopro,
talvez uma ténue aragem
um rumor de pássaro iniciando um voo
quiçá um nenúfar suspenso na aguagem...

do rio desfalecido que já sou.

Um leve, quase impercetível pulsar
na fímbria esquecida do coração
um velho mas renovado despertar
no tardio florir do desejo e da paixão.

Um instante riscado no cristal do tempo
talvez um tempo vestido pelo avesso
quem sabe se o amargo deslumbramento
que sinto e desencanto em cada verso.

(Miguel Afonso Andersen) - in A aparição de Sofia
 
Arte de: Alberto Pancorbo
 


O SILÊNCIO


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,...

quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.

(Eugénio de Andrade) - in Obscuro Domínio

quinta-feira, 7 de agosto de 2014


Amar é beber um cheiro.
É transporta-lo para dentro de nós.
Amamos uma mulher quando cheiramos ao seu cheiro...

(João Morgado)