segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O ÚLTIMO AMOR


 Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão....


Era o último amor. Quem adivinha
o sabor breve pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes e passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.

(Luís Filipe Castro Mendes)
in OS AMANTES OBSCUROS, incluído em POESIA REUNIDA, (Quetzal, 1999

Pintura de: Alena Plihal

PRIMEIRA PALAVRA


Aproxima o teu coração

e inclina o teu sangue...


para que eu recolha

os teus inacessíveis frutos

para que prove da tua água

e repouse na tua fronte

Debruça o teu rosto

sobre a terra sem vestígio

prepara o teu ventre

para a anunciada visita

até que nos lábios humedeça

a primeira palavra do teu corpo


 (Mia Couto) in RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS (Caminho, 2009)
Arte de: Alena Plihal

DEITA-TE AQUI - ESTA NOITE, DENTRO DE MIM


Deita-te aqui – esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos: talvez assim eu possa esquecer para...

sempre quem me matou de amor, ou morrer
de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me

também: onde os teus dedos tocarem há uma
ferida que o tempo não consegue transportar.
Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que

quiseres está bem – tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,

dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.

(Maria do Rosário Pedreira)

E ASSIM TE QUERO


  Quero-te... sim acredita!

De corpo e alma
...

Ler-te
Do princípio
Ao fim
Todas as páginas
De cima para baixo
Assim e assim
Quero...
Delicias
Sensualmente
Carícias
Docemente
Quero-te...
Aos poucos
Gole por gole
Sem pressas
Porque o amanhã
São asas abertas

Eu quero, nunca estar satisfeita

Ter fome de ti, desejar-te
E sempre, sempre sentir-te

Lembrar-me de ti
Tocar-te
Inventar-me
Reinventar-te

Sim, quero-te, eternamente

(Paula OZ)
Arte de: Theodore Jean Louis Gericault
 
Decifra em mim, a luz dos meus olhos, abre as janelas...
Escuta o poema dos meus dedos, choram sem segredo
No mapa da minha mão, guardo sonhos, memórias e tantas histórias

De ti,
Só desejo o eco da tua voz, soluço doce, eterno, a bris...
a dos teus lábios
O amor que nunca ouvi...quando nos sentíamos sós
(aquele sopro no meu ouvido, suave que nem beijos)

Eis o corpo do silêncio

(Paula Oz)


Sou um presente de que ninguém fala
quando não estou abraçado à parte que me completa
quando não entrelaço os meus dez dedos nos teus
quando sou faísca sem lume
e um negrume...

mais negro que a própria noite
gato sem telhado
sombra sem destino

Sou um presente sem futuro
uma ave sem rumo
uma seta apontada ao peito
de um pássaro em pleno voo

Se me escondo?
Se tenho medo?
Nada disso!
Tudo vale a pena por um minuto ao teu lado
e só por isso
sou feliz do mesmo jeito!

(são reis)
251013

OUSA...


Navegando nas ondas do teu corpo,
sei que aportarei ao ‘Cais da Perfeição’!

Acostarei o meu coração ao teu...

e os atarei, com Laços de Afeição !

Farei deles um livro aberto
espelhando ao mundo o absurdo
o absorto
e o esperto,
que a vida,
por ser ladina
me ensina
e
me põe a descoberto

... e quero mergulhar nas ondas do teu corpo
pensando mesmo
que nunca saberei, nelas navegar

Mas teimo!

E algum dia, com tanta teimosia
hei-de aprender, a nele navegar

Aiiiii ! … e quando bem o souber fazer
e em cima das ondas me sustiver,
dir-te-ei como ousares p'ra me beijares
sem qu' eu tenha que te repreender

Irás gostar dos meus beijos,
dos meus carinhos e dos meus desejos … (vais ver) !

Navega, tu também, nas ondas do meu corpo !

Experimenta

Ousa viver
e
navegarás nele ...

até eu morrer !

(Magá Figueiredo)
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