quarta-feira, 5 de junho de 2013

PORQUE ME APETECE#21



 O maior dos problemas é o teu
abraço.

Havia, na noite (gatos vadios miavam no redor
...
da porta, todas as luas estavam juntas a observar
o que era viver) em que nos amámos
pela primeira vez, as peles virgens à espera do momento
absoluto, e nenhum sol poderia saber-se
de luz se entrasse no meio dos nossos braços. Tínhamos
em nós as certezas mais perenes
de um Homem, o afago transparente de todos
os cansaços. Tu gemias e eu sabia que era tempo
de continuar.

“Se não morreres mato-me”, dizias-me, na véspera
do orgasmo que os dedos pressentiam e as pernas
tremiam. Quantas vezes se pode morrer
quando se ama assim?
“Se não houvesse o teu corpo acreditaria
em Deus”, explicava-te, enquanto a mão
se perdia por onde só o eterno sabe
acabar. Todos os corpos estão por desflorar antes
de um amor assim.

E se algo merece erguer-se é o sexo
que nos percebe.

“Se formos menos do que isto
somos nada”, a queda das palavras no centro
do que te amei, apertar-te a mão para garantir
o segundo, para que os relevos das veias
saibam que existo. “Acabaste comigo no momento
em que me fizeste começar assim”, e a partir dali
todos os suores foram despedidas, como
se soubéssemos que havia tudo
menos espaço (a cama fechada com as nossas lágrimas
dentro: quantos metros exige um amor?)
para quem se precisa tão grande.

A única culpa é da curva
dos teus lábios.

Às vezes é na rua que me deito
para te beijar; e há ali, na pedra
suja, a verdade de nenhuma gente
me chegar. Se o céu existir
é o da tua boca.

E vale a pena morrer só para
um beijo assim.

(Pedro Chagas Freitas)


Nenhum silêncio me decifra
e no entanto todos se passeiam em mim
Incontornável silêncio esse
que tanto me desnuda
e tanto me cobre...!

são reis
030613


No prelúdio da noite exilo-me de mim, deixo meu corpo opaco estatuado na praça da cidade. Leve e nua percorro as calçadas onde todas as pedras que não sinto em meus pés são a leveza transmutada dos goles de amor que beberico em cada muro grafitado de saudade.
Fico contemplando o fascínio silencioso da noite, é nela que me embrulho diariamente e me acalmo dos frios constantes que me estremecem a al...
ma.

É na tua janela que meu olhar se retém… sei que posso entrar pelo estore que nunca fechas, mas há um sinal em meu peito que me diz que esse não é o caminho.
Poderia invadir-te pela janela sem me veres… sentar-me a teu lado e velar teu sono preocupado, afagar tuas insónias ou mesmo trautear uma canção de embalar que não escutaste enquanto criança.
Poderia entrar e concertar os sonhos que deixaste partir. Desenhá-los a traço fino com a tinta da minha pena e preencher todos os espaços em branco com óleos perfumados de amor.
Poderia ser concreta e sonho… se tu e [eu] me permitisse[s]!!!

Estática fico olhando tua cidade do lado de fora de mim. Calcorreio a avenida exausta, com o peso da lágrima na alma e volto à praça onde me enterro na estátua outrora acalentada por ti.

[Sou-me pirilampo desvairado em busca de sua seara de trigo.]

(C.C.)

SEGREDO



 Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

...
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

(Maria Teresa Horta)

Within Temptation - Forgiven (legendado)


SOU UMA MISTURA



Sou o que sou...
Uma mistura de menina mimada,
inocente para tudo o que faz doer...
...
Com um corpo de mulher madura,
de cabeça erguida,
sempre batalhadora
em busca do melhor caminho a seguir...
Tenho ainda, talvez;
uma costela de mulher idosa...
Já um pouco cansada,
mas que aprendeu
que a virtude principal
para vencer na vida;
vem da arte de conhecer a paciência,
fazer dela fiel companheira...
Pois é com a paciência
que encontra-mos na vida
o caminho que conduz à paz,
à justiça, à serenidade
e ao pleno amor!

(Rómy Pinto)
INTIMIDADES

 
Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
...
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao
[mundo.
Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não o afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

(Fernando Namora)