segunda-feira, 6 de maio de 2013

POEMA V




 Para que me oiças
minhas palavras
...
adelgaçam-se às vezes
como a pegada das gaivotas nas praias.

Colar, guiso embriagado
para as tuas mãos suaves como as uvas.

Minhas palavras, vejo-as tão distantes!
Mais que minhas, são tuas.
Pela minha dor vão trepando como heras.

Trepam assim pelas paredes húmidas.
És a culpada deste jogo sangrento.

Estão a fugir do meu sombrio abrigo.
Tu ocupas tudo, ocupas tudo.

Antes de ti povoavam a solidão que ocupas,
e estão habituadas mais que tu a esta tristeza.

Quero agora que digam o que anseio dizer-te
para que as oiças como anseio que oiças.

O Vento da angústia costuma ainda arrastá-las.
Furações de sonhos ainda às vezes as tombam.
Escutas outras vozes na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Segue-me.
Segue-me, companheira, nesta vaga angústia.

Mas vão-se tingindo com teu amor minhas palavras.
Tu ocupas tudo, ocupas tudo.

De todas vou fazendo um colar infinito
para tuas brancas mãos, suaves como as uvas.
 
(Pablo Neruda)
 
 

domingo, 5 de maio de 2013

PERCO-ME EM TI...





Na sala, no solo, a pele que nos protege do chão frio…
A lareira que guarda as chamas que nos iluminam…
Pedaços de madeira que crepitam…
...
O vinho, doce néctar que nos atordoa os sentidos…
A música que tu escolhes-te que nos envolve…
Ao longo da pele, um corpo de Deusa que me chama…
Murmura baixinho o meu nome, em gritos ensurdecedores…
Apenas á luz das chamas na sua dança estonteante…
Espalho-te um óleo, suave aroma pelo teu corpo…
Delicadamente, apenas….. suavemente…
Deixando sentir o teu corpo nos meus dedos…
Tocando-te quase sem te tocar…
Massajo-te os ombros, toque que tu adoras…
Deixo resvalar no óleo as mãos ao longo das tuas costas…
Até á cova do teu corpo, antes de duas elevações que me assombram…
Repito o toque ao longo de ti, ao longo do teu corpo…
Toque de mãos, de dedos, de lábios, saboreio-te…
Descaio, sempre deixando descair a língua sobre ti…
Paro, caio, precipito-me suavemente dentro de ti…
Língua que se perde no mais intimo do teu Ser…
Lábios que encostam a ti, língua que te saboreia, brincando…
Fazendo soltar doces gemidos de prazer…
Corpo que estremece, de encontro a mim, entras pela minha boca…
Sinto-te, quero-te, almejo por mais, ânsia de te possuir…
De entrar em ti, de me afundar em ti, perdendo-me…
Musica que nos envolve, a tua musica…. que tão bem conheces…
As chamas iluminam-te, os teus esgares de prazer…
Os teus olhos que reviram, os teus lábios que se contorcem…
O teu corpo que pede mais, a tua voz que suplica…
A tua Alma que se funde na minha…
Os nossos corpos que se unem, que se fundem apenas…
Dentro de ti estou no céu, abaixo as nuvens…
Ao longe tempos de escuridão, negrura que percorri…
Em ti, eu apenas ,á minha volta, tu por completo…

(Carlos L Fonseca)
 
 
 

É NOITE, MÃE




 As folhas já começam a cobrir
o bosque, mãe, do teu outono puro...
São tantas as palavras deste amor
...
que presas os meus lábios retiveram
pra colocar na tua face, mãe!...

Continuamente o bosque se define
em lividez de pântanos agora,
e aviva sempre mais as desprendidas
folhas que tornam minha dor maior.
No chão do sangue que me deste, humilde
e triste, as beijo. Um dia pra contigo
terei sido cruel: a minha boca,
em cada latejar do vento pelos ramos,
procura, seca, o teu perdão imenso...

É noite, mãe: aguardo, olhos fechados,
que uma qualquer manhã me ressuscite!...

(António Salvado) in "Difícil Passagem"

quinta-feira, 2 de maio de 2013